terça-feira, 11 de maio de 2021

Fado Operário

 

FADO OPERÁRIO

(S. Pedro da Cova)

 

 

Quando baixamos ao fundo,

É um funeral pegado

Até chegar ao repouso a)

Onde trabalha o escravo!

 

Mas dentro daquela urna,

Há lá uma cruz pesada:

Gente! Não temos valor,

E trabalhamos sem dor

Onde os nobres ganham fama.

 

O carvão que a gente mina,

 Sustenta tanta família,

Numa quadra tão sangrenta;

Quando estivermos cansados,

E do trabalho impossibilitados,

Não temos quem nos defenda.

 

Senhor Augusto Farinas,

É o director das minas,

Vá ao fundo justificar.

Como um homem sem coração,

Que nos quer tirar o pão b)

E a gente a trabalhar.

 

Senhor engenheiro em segundo,

Capatazes gerais, em terceiro,

Os vigilantes em quatro;

Às vezes sem ter razão, que nos roubam o dinheiro.

 

Mas logo de manhãzinha,

Com aquela luz vivinha,

Labutamos com a fé,

Arrancamos tanta fortuna,

E nunca temos nenhuma,

O mineiro tão pobre é!

 

 

a)    cemitério

b)     cortes de vencimento