quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Barcos do Douro e Pesca

 

Barcos

 

Ó barqueiro trás cá o barco,

Trás também a amarração....

Eu quero atravessar

De Avintes para Valbom!

                                      Popular

 

 

O rio Douro foi sempre um rio de difícil navegação dado as regiões montanhosas que atravessa e as variações de caudal nas diferentes estações do ano. A arquitectura dos seus barcos foi adaptada a estas características.


Entre o Porto e Crestuma são frequentes os barcos de pá, com fundo estreito de tábuas sobrepostas, bordos altos e bico agressivo adaptados ao troço sem acidentes dignos de nota. É caso do Valboeiro. 
Entre Crestuma e Entre-os-Rios, onde existem alguns acidentes, o fundo do barco alarga-se, proporcionando melhor maniabilidade e adoptando a espadela. Foi o caso do Rabão Branco , posteriormente, também do Negro.  
Nesta zona, junto a Pé de Moura, havia, ainda, os "saveiros" com coqueiro e até espadela.
De Entre-os-Rios para montante são adoptados barcos de formas ladeiras e boleadas para fazer face aos grandes acidentes de percurso. Nesta zona dominava o tipo Rabelo.  

 O barco Rabelo é um barco de espadela - ramo que governa o barco e está sujeito a um eixo tornel.

Possui, ainda, dois remos de cada lado e fundo chato - o sagro - constituído por um número ímpar de tábuas. Tem forma lenticular.

Barco Rabelo,  Octávio L. Filgueiras, Tipologia dos Barcos

Há autores que defendem uma origem Sueva, outros Visigótica ou até Viking.
Transportava vinho, lenha, madeira, carvão, fruta, palha, batata e outras mercadorias.
A vida a bordo do Rabelo era árdua e trabalhosa, existindo, então, uma espécie de hierarquia de comando. Para um barco de 50 a 60 pipas, a tripulação era constituída por treze pessoas ordenadas do seguinte modo: arrais, feitor da proa, feitor da espadela, braceador, moço, 1º, 2º, 3º e 4º cabresteiro, vinhateiro, ponteador da pá-dos-dois, ponteador da pá-dos-três e ponteador da pá-da-ré.
A confecção da comida estava a cargo do moço e do vinhateiro que, também, zelava pelo vinho e pelos víveres da chileira.
Grande parte das refeições eram à base do caldo e do peixe pescado pelos próprios além de pão e vinho.
Ao longo da navegação, nalgumas regiões, o barco Rabelo tinha que ser puxado à Sirga. Com uma buzina, búzio ou corno, os tripulantes do barco chamavam os bois que os lavradores costumavam alugar para puxar o barco - é a navegação à Sirga.
Os perigos de rápidos, pontos ou golas levava os marinheiros a assinalá-los com santos aos quais pediam a protecção. Transportavam, também, por vezes, uma caixa com as "Alminhas" do barco, onde depositavam a sua esmola.

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 O barco Rabelo como transportador de vinhos desapareceu. No entanto, ainda o podemos ver no Cais de Gaia a fazer propaganda às Companhias Vinícolas. E já agora, porque não entrarmos num dos barcos adaptados às viagens turísticas rio acima? A viagem enche os olhos e o coração de beleza!


Este barco foi dos que mais inspirou os artistas gondomarenses que o reproduziu vezes sem conta em filigrana.

Foto Maria Gomes

Barco Valboeiro - É governado através da pá. O fundo é constituído por uma única tábua - a cal - é completada por uma ou duas tábuas já inclinadas, os fundos.

Funciona como barco de pesca - o saveiro - barco de rio e mar ou barco de carga e transporte de passageiros.

Como saveiro era o barco utilizado na pesca do sável, media cerca de 6,8 metros. Podia ser, todavia, utilizado, também, como barco de carga. Adoptavam um sobrecéu quando se destinavam às padeiras de Avintes ou ao passeio ao longo do rio. Como barcos de passagem para a travessia entre Gondomar e Gaia, eram, por vezes, conduzidos pelas barqueiras e mediam cerca de 7,5 metros. Neste caso o rebordo falso é calafetado e munido de um resguardo para evitar a entrada da água. Podiam ter também coqueiro.


"A Barca de Avintes", óleo s/tela de António Silva Porto

(séc.XX col. Museu Nacional Soares dos Reias) - com sobrecéu

  Hoje, apenas, Pé-de-Moura, Esposade e Ribeira de Abade permanecem baluartes destes barcos.

 

RABÃO BRANCO - De estrutura semelhante ao rabão negro ocupavam-se, porém no transporte de mercadorias como as madeiras de Melres, carqueja e lenha de Medas ou Lomba, as famosas melancias de Covelo bem como os nabos de Gondomar, além de outras.

 

 

Rabões utilizados na exploração da areia
foto de Manuel Joaquim Soares
in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres", Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997, pg 51

  

RABÃO NEGRO - Tinha a tonelagem de 50/60 ton. ou até mais.

Transportava carvão, sobretudo das Minas do Pejão que começaram a laborar em 1917.

Os últimos barcos a navegar forem os que transportaram o carvão das Minas do Pejão até à fábrica de briquetes no Esteiro de Campanhã, nos anos sessenta de 1900 - era a esquadra negra.

O Rabão tinha uma tripulação de quatro homens: um arrais com o leme a seu cargo e função de comando; o feitor que substituía o arrais na sua ausência; o cozinheiro e o marinheiro encarregado da cama onde se dormia em conjunto.

Normalmente, apresentando uma tonelagem de 50/60 toneladas, nos anos 60 de 1900, para fazer face à concorrência, chegou a atingir 70 e mais.

O Rabão embora diferente do rabelo assemelha-se-lhe pela terminologia das peças.


Rabão Negro

 

                                                foto do Rabão Negro, Octávio L. Filgueiras,

                                                O Rabão da Esquadra Negra.

 

Tinha a tonelagem de 50/60 toneladas ou até mais. Transportava carvão, sobretudo das Minas do Pejão que começaram a laborar em 1917.
Os últimos barcos a navegar foram os que transportaram o carvão das Minas do Pejão até à fábrica de briquetes no Esteiro de Campanhã - era a esquadra negra.


O Rabão tinha uma tripulação de quatro homens: um arrais com o leme a seu cargo e função de comando; o feitor que substituía o arrais na sua ausência; o cozinheiro e o marinheiro encarregado da cama onde se dormia em conjunto.
Normalmente, apresentando uma tonelagem de 50/60 toneladas, nos anos 60 de 1900, para fazer face à concorrência, chegou a atingir 70 e mais.
O Rabão embora diferente do Rabelo assemelha-se-lhe pela terminologia das peças.

 

A construção

 Para construir estes barcos havia artesãos especializados. Hoje, esta arte está a cair em desuso. No entanto, em Melres, o senhor Manuel Joaquim Moreira de Sousa, mais conhecido por Nelito do Sr. Albertino, ainda faz Valboeiros ou outro tipo de barcos. Afirma que esta actividade é financeiramente compensadora, por isso se admira de não haver quem queira aprendê-la. Talvez, porque hoje tudo é facilitado, já que ele como aprendiz tinha que ir de casa em casa à procura de trabalho e nada ganhava com isso. Hoje, tem o seu estaleiro em Vilarinho, Melres e apesar da tarefa trabalhosa, não tem mãos a medir.

o único construtor e reparador de barcos em Melres o único construtor e reparador de barcos em Melres [foto Emílio Ferreira, Melres, Julho de 1998  in  "Artes e Saberes da Terra de Melres", Melres, 1998, pg.28

Manuel Sousa - construtor e reparador de barcos em Melres
foto Emílio Ferreira, Melres, julho de 1998
in "Artes e Saberes da Terra de Melres", Melres, 1998, pg. 28

 

No entanto, nesta arte notabilizou-se um outro artesão, Mestre Arnaldo.
Arnaldo Pereira nasceu em Vilar do Andorinho, Vila Nova de Gaia, a nove de Março de 1911, numa família tradicionalmente construtora de barcos. O bisavô ensinou a arte ao avô e este ao pai que transmite o saber a Arnaldo. Assim, aos treze anos já ajudava o pai na construção de barcos. Com ele ia por Crestuma, Pombal, Lixa, Carvoeiro, Melres e até Entre-os-Rios.  Aos dezoito anos construiu o primeiro Valboeiro. Estabeleceu-se em Melres a construir barcos e fez desta arte a sua ocupação até morrer. Participou em inúmeras feiras de artesanato a fim de dar a conhecer os barcos que saíam das suas mãos.

 

Mestre Arnaldo a colocar pegões. [foto de Manuel Joaquim Soares in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres", Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997]

Mestre Arnaldo, a colocar pegões.
[foto de Manuel Joaquim Soares
in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres",
Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997, pg 106]

 

PESCA

 

                                                                  Foto Maria Gomes

A importância da pesca nesta região vem de tempos longínquos - Os Fenícios comercializavam o peixe salgado e os Romanos, a partir do século II, a conserva de peixe - garum. Em tempos medievais os Senhores preocuparam-se em legislar sobre a cobrança de impostos sobre o pescado, como pode ser exemplificado no Foral de Gondomar. Só em 1843 vão ser substituídos todos estes impostos de pesca devidos aos senhores pelo pagamento ao Estado de 6% dos lucros dos pescadores, que em 1928 passa para 8,3% do valor do pescado.

A preocupação de regrar a pesca vai também ser constante. Desde muito cedo são redigidas leis nesse sentido.  Por exemplo Os "Acordãos da Câmara do Porto" de 1560 e 1561 estabelecem o tipo de malhas permitidas e proibem certas redes (mossas e covãos nos meses de março a maio exceto para os Sáveis, bogas e tainhas e com redes varredouras: tresmalhos e galritos dobrados) bem como proibem a poluição das águas com trovisco, barbasco, coca ou cal. No entanto a provar que a prevaricação é constante o Decreto de 16 de setembro de 1886 volta a proibir os mesmos métodos e redes.

As penas consistiam em prisão de três a trinta dias e correspondente multa.

 

 

MOSSA - pancada

 

COVÃOS - grande cova

 

TRESMALHO - rede de tres panos para pescar

 

GALRITO - rede formada por um saco

 

COCA - planta extraída da coca, planta narcótica.

 

CAL -  óxido de cácio

 

TROVISCO  - subarbusto frequente nos outeiros,charnecas e matos, tem flores cheirosas, dispostas em cachos terminais, com pedúnculos e pedicelos branco-tomentosos.

 

BARBASCO - folhas da planta do mesmo nome - barbasco, verbasco ou alecrim das paredes - planta medicinal com flor amarela e sementes negras.

 

 

AS REDES 

 A lampreia podia-se pescar com:


- o Alar
Rede triangular bastante comprida. É fixa na areia por uma vara de pinheiro com o vértice em oposição à corrente da água. Na extremidade possui uma "nassa", ou armadilha. Retem cerca de 40 a 50 lampreias.
É utilizado na pesca da Lampreia.





nassa para as pesqueiras do Douro in Baldaque da Silva

- Camaroeiro ou conchinha
Compõe-se por um saco de rede, pano rectangular com costuras laterais, que se prende a um arco em madeira ou ferro, que por sua vez está ligado a um cabo.
É utilizado para espécies que se encontram em grupos. sável, lampreia; savelha.

- Tresmalho ou Vanda
Redes de três panos sobrepostos tendo cada um a forma rectangular - a rede mais larga fica por fora e a mais fina por dentro. As malhas têm todas a forma quadrada. São empregadas por todo o rio Douro deixando-as andar com a maré acompanhadas pelo barco.
É utilizado para o sável, lampreia; savelha

- Varga, varina ou Barga
Rede de arrasto de linho.Têm um único pano de emalhar e grande cortiçada na tralha superior e a inferior liga-se ao lastro que é feito de poucos pedaços de barro vermelho ou lousa chamados bolos - são usadas na costa e dentro do rio sempre a arrastarem do mar para a terra para o que tem cordas amarradas às forcadas.
É utilizado para o sável, savelha, solha.

- Espinhela
Para a lançar começa-se por enterrar, perto da margem, uma estaca, com cerca de meio metro onde se amarra uma corda. Na outra extremidade prende-se com um fio uma pedra com cerca de 500g que é para assentar no fundo. Esta é atirada ao rio esticando a corda. A linha com cerca 200m tem um anzol de 10 em 10 e isca-se com minhoca, camarão ou sardinha. No final deste aparelho amarra-se um bóia para saber onde ficou.
É usada para peixes de tamanho médio - enguia, robalo e tainha.

É usada, ainda a Cana para peixes pequenos. Ao longo do rio, em determinados pontos eram colocadas pesqueiras - estratagemas para pescar.


Quanto ao peixe pescado o  Foral de Gondomar refere a : Lampreia; Sável: Solha e Irez  (eiró - espécie de enguia).   

 Hoje, ainda é possível pescar enguia, barbo; boga; escalo; tainha; mugem, ruivaca, alguma lampreia e sável;

 

Os peixes do rio Douro 

 

 Barbo - BARBUS

| Enguia - ANGUILLA
| Boga - CHONDROSTOMA POLYLEPSIS
| Escalo - LEUCISCUS
| Truta -  SALMO GAIRDNERI - SALMO GAIRDNERI - truta arco-íris
| Lampreia - LAMPETRA FLUVIALIS 
| Sável - CLUPEA ALOSA
| Solha -FLESUA VULGARIS  
| Tainha  MUGIL CAPITO
| Muge - MUGIL AURATUS

 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Rio Tinto - documento mais antigo em português

 

Notícia dos fiadores


O documento conhecido mais antigo escrito em português diz respeito à Ordem de São Bento, Mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, (Torre do Tombo, mç. 2, doc. 10) o documento mais antigo grafado em latim e português.

O pergaminho contém quatro documentos, registados dois no anverso e dois no verso. No anverso, encontra-se registada uma carta de doação de arras feita por Soeiro Pais a Urraca Mendes, em 1146, e a Notícia dos fiadores do seu segundo filho, Paio Soares Romeu, membro da família dos senhores de Paiva, datada de 1175, com registo invertido relativamente ao primeiro documento. No verso, encontram-se registadas duas notas de despesa, uma por Pedro Pais e outra por Pedro Parada, que embora sem data, poderão ser do ano de 1175 ou anteriores. A Notícia de fiadores é considerado um dos documentos originais mais antigos que se conhece, datado e escrito em português.
Linha 3. Menendo garcia .xxti. soldos. petro suarici .xxti. soldos Era Ma. CCaa xiitia Istos fiadores atan .v. annos que se partia de isto male que li avem
PT-TT-MAMP-MSCRT-001-0002-10_m0001.jpg - Documentos relativos a Soeiro Pais, Urraca Mendes, sua mulher, e a Paio Soares Romeu, seu segundo filho e Notícia de Fiadores - ANTT - Digitarq

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Gerardo António Kimpell Ribeiro

 Gerardo António Kimpell Ribeiro


Distinto violinista, nasceu em Valbom em 1950 e está radicado há anos na Florida (EUA). Frequentou o conservatório de Música do Porto, como bolseiro da Gulbenkian. Aos 15 anos, entrou para o Conservatório de Lucerna, Suíça. Em 1967, foi para Juillard, dando concertos na Europa, URSS e América do Sul. Em 1972 participou no concerto organizado pela Câmara de Gondomar. Tem integrado várias das melhores orquestras mundiais.

Paulo de Passos Figueiras, S. Veríssimo de Valbom – subsídios para uma monografia – 1ª edição do Centro Social e Cultural da Paróquia de S. Veríssimo de Valbom, Gondomar, p. 329




Gerardo Ribeiro é atualmente reconhecido em quatro continentes como um dos mais importantes violinistas virtuosos da sua geração. Tendo realizado recitais nalgumas das mais prestigiadas salas de concerto nova-iorquinas, como Carnegie Hall, Alice Tully Hall e Metropolitan Museum, Gerardo Ribeiro apresentou-se igualmente no Kennedy Center de Washington e é apreciado nos principais centros musicais da Europa, América do Sul e Extremo-Oriente.



Como solista de concerto, Gerardo Ribeiro actuou já com as Orquestras Sinfónicas de Filadélfia, Montreal, Dallas, Lucerna, Barcelona e Cali, as Orquestras Filarmónicas de Zagreb e Antuérpia, as Orquestras Nacionais de Taiwan e Bélgica, a Orquestra da Rádio de Paris, as Orquestras de Hilversum (Holanda) e de Hannover (Alemanha) e com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, entre outras formações de primeiro plano. No domínio da música de câmara, exerceu a direcção artística do Instituto Internacional de Música de Câmara de Munique e actuou no Festivais Internacionais de Música de Marlboro e Lucerna.



Gerardo Ribeiro iniciou os seus estudos musicais com a idade de quatro anos, frequentando depois o Conservatório de Lucerna e a Juilliard School, tendo estudado nesta instituição com Ivan Galamian, Paul Makanowitzky e Felix Galimir. No decurso da sua carreira subsequente, obteve numerosos prémios em destacados concursos internacionais, como os Concursos Paganini e de Montreal, e venceu o Concurso Viana da Mota, em Lisboa, e o Concurso Maria Canals, em Barcelona. Depois de ter ensinado violino na Eastman School of Music, Gerardo Ribeiro integrou o quadro docente da Universidade de Northwestern como professor de violino.



As gravações de Gerardo Ribeiro encontram-se disponíveis nas etiquetas EMI e RCA. No âmbito de um projecto ainda em curso, desenvolvido em conjunto com a RCA, Gerardo Ribeiro tem vindo a gravar a integral das sonatas para violino de Brahms e Beethoven, a par com o Concerto para Violino e o Duplo Concerto de Brahms.


Violino Biografias http://www.musica.gulbenkian.pt/

domingo, 29 de junho de 2025

S. Pedro, Valbom-Gondomar

 S.Pedro, Valbom

 

Conta Paulo Figueiras (1998, p. 137-138) que S. Pedro  mobilizava uma das maiores festas de Valbom, no dia 29 de junho. 

 

Na véspera, vários conjuntos musicais e zés  pereiras, percorriam a freguesia, anunciando a festividade.

Na capela, no alto de Ribeira de Abade, no dia de S. Pedro, de manhã,  havia missa  solene.

De tarde, havia  a procissão que descia até até ao rio, depois de percorrer as ruas enfeitadas com tapetes e de passar pelas casas que saudavam o cortejo, com belas colchas  à janela. Os barcos eram festivamente engalanados. No final do século XIX, S. Pedro passearia, mesmo, no rio Douro, a abençoar as diversas embarcações.

 

No século XIX:

 

 

Constituição de um Montepio e encomenda da imagem de S. Pedro.

 

As campanhas piscatórias que constituem a tripulação de oito lanchas, resolveram criar um “Montepio que os auxilie nos momentos cruciais na sua penosa vida, escolhendo para o próximo sábado, dia de S. Pedro, seu patrono” o dia da sua criação. ( JN de 27.06.1889)

 

Nesse mesmo dia “foi inaugurada com toda a solenidade, pelas citadas 8 campanhas de pesca estabelecidas em Valbom, descendo na manhã desse dia, o rio, festivamente embandeiradas, trazendo a bordo, uma filarmónica e algumas crianças vestidas de anjo. Desembarcaram no cais da Ribeira (Guindais), onde, depois, cá fora, organizaram um cortejo que subiu até à Rua do Almada, onde foram, para receber na casa do escultor, Albino Ribeiro da Silva, a imagem de S. Pedro, a qual fora encomendada a este escultor. Colocando-a num barco adornado de belas flores e redes de pesca, reorganizou-se na rua o cortejo de regresso até à Ribeira. Seguiram pela Rua do Almada, Praça D. Pedro, Freiras de S. Bento, Rua das Flores, S. João de Abade. Todas as lanchas exibiam os seus estandartes de seda vermelha, tendo cada uma, o nome do mestre de campanha. No estandarte maior e com letras mais salientes, lia-se “Montepio dos Pescadores de Valbom”. Nesta procissão fluvial, incorporaram-se pescadores da Afurada, Foz, Leça, Matosinhos, Avintes e da Póvoa.” Na Ribeira de Abade inaugurou-se o Montepio ao som da banda filarmónica instalada no coreto.

As autoridades religiosas só deram início às festividades, depois de benzerem a imagem de S. Pedro.

 

1890 – Bandeira de S. Pedro

 

(…) “a campanha que mais rendimento obtivesse com a sua rede de pesca ficaria com a bandeira de S. Pedro em sua posse durante um ano. O contemplado, com o apuramento de 260.145 reis, foi Serafim Fevereiro, da lancha “Senhora da Guia”. O Comércio do Porto, 30 junho, 1890.





Procissão 2008

Procissão 2008

                                                                     Procissão 2008


Procissão 2008
                                                                       Procissão 2008


                                                                             Procissão 2008




Procissão 2008



Procissão 2008



                                                                                   Procissão 2008
Procissão 2008




S. Marçal
Procissão 2008

S. Marçal
Procissão 2008


S. Marçal

Procissão 2008



Procissão 2008

N. Srª Abadia
Procissão 2008


Sagrado Coração de Jesus

Procissão 2008

N. Sr.ª de Fátima
Procissão 2008

S. José
Procissão 2008


N. Sr.ª dos Navegantes
Procissão 2008


S. Pedro

Procissão 2008



Procissão 2008



                                                                    Procissão 2008

Procissão 2008










                                                                    Capela de S. Pedro







Bibliografia

Figueiras, Paulo, S. Veríssimo de Valbom,Subsídios para uma monografia, 1.ª Edição do Centro Social e Cultural da Paróquia de S. Veríssimo de Valbom, Gondomar.
















quinta-feira, 10 de abril de 2025

Pégadas de Camilo Castelo Branco em Gondomar

 Camilo Castelo Branco e Gondomar

 

 

Camilo Castelo Branco, aos 16 anos, casou com Joaquina Pereira de França, então com 14 anos, “cachopa guapa”[1] a 18 de agosto de 1841, na Igreja de S. Salvador de Ribeira de Pena. Deste casamento nasceu Rosa Castelo Branco.

Joaquina que nasceu em 23 de novembro de 1826, no lugar do Taralhão, concelho de Gondomar,  vem a falecer em 25 de setembro de 1847, com 20 anos de idade, no lugar de Friume, Ribeira de Pena, sem nada de seu.

Camilo, depois do casamento, teria ido estudar para o Porto. A filha Rosa Castelo Branco, nascida a 25 de agosto de 1843, recolhida pelos avós, faleceu em 10 de março de 1848.

Entretanto, Camilo ter-se-ia enamorado de Maria do Adro e depois vivido com Pratrícia Emília do Carmo Barros, no Porto. Desta última relação nasceu, Bernardina Amélia.

Bernardina Amélia, sem que Camilo a perfilhasse, foi criada em Iscariz e mais tarde, apoiada financeiramente por Camilo, entra no Convento de Avé Maria, no Porto, entregue aos cuidados da freira, D. Isabel Cândida Vaz Mourão, com quem Camilo se tinha relacionado, nas tertúlias do Convento.

Em 28 de dezembro de 1865, Bernardina Amélia, com 17 anos, casa na Igreja de Valbom, com António Francisco de Carvalho Guimarães, de 42 anos de idade, proprietário da Quinta do Desembargador, em Valbom, que tinha herdado da mãe, D. Ana de Sousa Loureiro.Esta tinha sido proprietária de uma padaria na Rua da Esperança. De feição liberal, costumava  proteger os presos políticos da Cadeia da Relação. Um destes presos, Dr. Francisco Marques de Oliveira, viúvo, ao sair, casou com ela em segundas núpcias, deixando-lhe, depois, a Quinta  de Valbom. Camilo não esteve presente no casamento. Em carta ao seu amigo Visconde de Ouguela confessa a sua discordância face a este enlace, dada a diferença de idades dos noivos, e ao convívio que tivera com António Francisco de Carvalho, antes de este ter ido para o Brasil, o que o levara a conhecer as suas aventuras amorosas, nas quais foi gerado um filho: António Francisco de Carvalho Júnior. De torna viagem do Brasil, António de Carvalho, volta rico ao Porto, acompanhado de uma viúva de 26 anos.

António Carvalho nascido a 30 de maio de 1823, na freguesia de S. Pedro de Miragaia, era mais velho que Camilo que nascera a 16 de março de 1825. Possuía um estabelecimento em frente ao Convento de Avé Maria, no qual terá conhecido Bernardina Amélia. .

.A atitude de Camilo para com o casal é, mais tarde, reconsiderada. Dirá, ao Visconde de Ouguela, talvez, em 1874[2]



 : "felizmente a minha filha saiu uma criatura angelical, e o marido é um excêntrico que a tem levado a viajar".

Camilo visita a filha em Valbom e escreve-lhe inúmeras cartas. Refere-se extremosamente à neta Camila Cândida, “engraçada trigueirinha”.[3]


Na verdade. Bernardina Amélia e António Carvalho, tiveram dois filhos. Camila e Camilo. Camila viveu em Valbom, passando depois a viver numa casa, ao fundo da Rua da Restauração, para assegurar mais facilmente a sua instrução. É, aí que nasce o irmão Camilo, a 23 de janeiro de 1885, tendo como padrinhos do seu batismo a irmã Camila e o avô Camilo Castelo Branco.

Camila casou no Porto com o clínico da Misericórdia, Dr. Joaquim Urbano Cardoso e Silva.

Camilo Castelo Branco de Carvalho tornou-se negociante, no Porto.

Nas cartas, Camilo lamenta que a filha viva em Valbom, com “ares do campo”, onde se “pode comer pescada às dez da noute, e dormir ao som da orchesta dos mosquitos” (...) mas também se refere ao “feliz socêgo de Valbom”. Reconciliado, chega a exclamar: ”Ai! Valbom! Que delícias te sorriem à beira do teu tanque e nas copas regorgeadas daquele bosque de verdura doirada pelos fructos!” (...) “Respiro lá melhor.”

A quinta “dos Allens”, “do Carvalho” ou “do Desembargador” vem parar às mãos de um outro Desembargador, Dr. Paulo Figueiras, por casamento com D. Maria Júlia Taborda. Hoje pertence aos seus herdeiros.

 



 [1] Alberto Pimentel, a primeira mulher de Camilo, p. 20 e segs

[2] Teófilo Braga, Camilo Castelo Branco, Esboço Biográfico, p. 54, 55. Este nome é significativo e terá tocado Camilo. Camilo do avô e Cândida da freira que a educara. O genro tornar-se-á, até, um prestimoso conselheiro de Camilo.

[3] Teófilo Braga, Camilo Castelo Branco, Esboço Biográfico, p. 54, 55.


Bibliografia:

Paulo de Passos Figueiras, S. Veríssimo de Valbom, Subsídios para uma monografia, 1ª edição do Centro Social e Cultural da Paróquia de S. Veríssio de Valbom, Gonsomar, 1998.

Serafim Gesta ( Mazola), De Gondomar a 1.ª mulher de Camilo, ed. Do autor, 1981.

Camilo de Oliveira, Monografia de Gondomar, vol III, p. 87 a 98, imprensa moderna, lda, 1934

Maria Antónia Neves Nazaré de Oliveira, Os biógrafos de Camilo. FCSH, 2010
















Quinta do Desembargador: 07.04.2025
Foto Fátima Gomes