quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Barcos do Douro e Pesca

 

Barcos

 

Ó barqueiro trás cá o barco,

Trás também a amarração....

Eu quero atravessar

De Avintes para Valbom!

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O rio Douro foi sempre um rio de difícil navegação dado as regiões montanhosas que atravessa e as variações de caudal nas diferentes estações do ano. A arquitectura dos seus barcos foi adaptada a estas características.


Entre o Porto e Crestuma são frequentes os barcos de pá, com fundo estreito de tábuas sobrepostas, bordos altos e bico agressivo adaptados ao troço sem acidentes dignos de nota. É caso do Valboeiro. 
Entre Crestuma e Entre-os-Rios, onde existem alguns acidentes, o fundo do barco alarga-se, proporcionando melhor maniabilidade e adoptando a espadela. Foi o caso do Rabão Branco , posteriormente, também do Negro.  
Nesta zona, junto a Pé de Moura, havia, ainda, os "saveiros" com coqueiro e até espadela.
De Entre-os-Rios para montante são adoptados barcos de formas ladeiras e boleadas para fazer face aos grandes acidentes de percurso. Nesta zona dominava o tipo Rabelo.  

 O barco Rabelo é um barco de espadela - ramo que governa o barco e está sujeito a um eixo tornel.

Possui, ainda, dois remos de cada lado e fundo chato - o sagro - constituído por um número ímpar de tábuas. Tem forma lenticular.

Barco Rabelo,  Octávio L. Filgueiras, Tipologia dos Barcos

Há autores que defendem uma origem Sueva, outros Visigótica ou até Viking.
Transportava vinho, lenha, madeira, carvão, fruta, palha, batata e outras mercadorias.
A vida a bordo do Rabelo era árdua e trabalhosa, existindo, então, uma espécie de hierarquia de comando. Para um barco de 50 a 60 pipas, a tripulação era constituída por treze pessoas ordenadas do seguinte modo: arrais, feitor da proa, feitor da espadela, braceador, moço, 1º, 2º, 3º e 4º cabresteiro, vinhateiro, ponteador da pá-dos-dois, ponteador da pá-dos-três e ponteador da pá-da-ré.
A confecção da comida estava a cargo do moço e do vinhateiro que, também, zelava pelo vinho e pelos víveres da chileira.
Grande parte das refeições eram à base do caldo e do peixe pescado pelos próprios além de pão e vinho.
Ao longo da navegação, nalgumas regiões, o barco Rabelo tinha que ser puxado à Sirga. Com uma buzina, búzio ou corno, os tripulantes do barco chamavam os bois que os lavradores costumavam alugar para puxar o barco - é a navegação à Sirga.
Os perigos de rápidos, pontos ou golas levava os marinheiros a assinalá-los com santos aos quais pediam a protecção. Transportavam, também, por vezes, uma caixa com as "Alminhas" do barco, onde depositavam a sua esmola.

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 O barco Rabelo como transportador de vinhos desapareceu. No entanto, ainda o podemos ver no Cais de Gaia a fazer propaganda às Companhias Vinícolas. E já agora, porque não entrarmos num dos barcos adaptados às viagens turísticas rio acima? A viagem enche os olhos e o coração de beleza!


Este barco foi dos que mais inspirou os artistas gondomarenses que o reproduziu vezes sem conta em filigrana.

Foto Maria Gomes

Barco Valboeiro - É governado através da pá. O fundo é constituído por uma única tábua - a cal - é completada por uma ou duas tábuas já inclinadas, os fundos.

Funciona como barco de pesca - o saveiro - barco de rio e mar ou barco de carga e transporte de passageiros.

Como saveiro era o barco utilizado na pesca do sável, media cerca de 6,8 metros. Podia ser, todavia, utilizado, também, como barco de carga. Adoptavam um sobrecéu quando se destinavam às padeiras de Avintes ou ao passeio ao longo do rio. Como barcos de passagem para a travessia entre Gondomar e Gaia, eram, por vezes, conduzidos pelas barqueiras e mediam cerca de 7,5 metros. Neste caso o rebordo falso é calafetado e munido de um resguardo para evitar a entrada da água. Podiam ter também coqueiro.


"A Barca de Avintes", óleo s/tela de António Silva Porto

(séc.XX col. Museu Nacional Soares dos Reias) - com sobrecéu

  Hoje, apenas, Pé-de-Moura, Esposade e Ribeira de Abade permanecem baluartes destes barcos.

 

RABÃO BRANCO - De estrutura semelhante ao rabão negro ocupavam-se, porém no transporte de mercadorias como as madeiras de Melres, carqueja e lenha de Medas ou Lomba, as famosas melancias de Covelo bem como os nabos de Gondomar, além de outras.

 

 

Rabões utilizados na exploração da areia
foto de Manuel Joaquim Soares
in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres", Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997, pg 51

  

RABÃO NEGRO - Tinha a tonelagem de 50/60 ton. ou até mais.

Transportava carvão, sobretudo das Minas do Pejão que começaram a laborar em 1917.

Os últimos barcos a navegar forem os que transportaram o carvão das Minas do Pejão até à fábrica de briquetes no Esteiro de Campanhã, nos anos sessenta de 1900 - era a esquadra negra.

O Rabão tinha uma tripulação de quatro homens: um arrais com o leme a seu cargo e função de comando; o feitor que substituía o arrais na sua ausência; o cozinheiro e o marinheiro encarregado da cama onde se dormia em conjunto.

Normalmente, apresentando uma tonelagem de 50/60 toneladas, nos anos 60 de 1900, para fazer face à concorrência, chegou a atingir 70 e mais.

O Rabão embora diferente do rabelo assemelha-se-lhe pela terminologia das peças.


Rabão Negro

 

                                                foto do Rabão Negro, Octávio L. Filgueiras,

                                                O Rabão da Esquadra Negra.

 

Tinha a tonelagem de 50/60 toneladas ou até mais. Transportava carvão, sobretudo das Minas do Pejão que começaram a laborar em 1917.
Os últimos barcos a navegar foram os que transportaram o carvão das Minas do Pejão até à fábrica de briquetes no Esteiro de Campanhã - era a esquadra negra.


O Rabão tinha uma tripulação de quatro homens: um arrais com o leme a seu cargo e função de comando; o feitor que substituía o arrais na sua ausência; o cozinheiro e o marinheiro encarregado da cama onde se dormia em conjunto.
Normalmente, apresentando uma tonelagem de 50/60 toneladas, nos anos 60 de 1900, para fazer face à concorrência, chegou a atingir 70 e mais.
O Rabão embora diferente do Rabelo assemelha-se-lhe pela terminologia das peças.

 

A construção

 Para construir estes barcos havia artesãos especializados. Hoje, esta arte está a cair em desuso. No entanto, em Melres, o senhor Manuel Joaquim Moreira de Sousa, mais conhecido por Nelito do Sr. Albertino, ainda faz Valboeiros ou outro tipo de barcos. Afirma que esta actividade é financeiramente compensadora, por isso se admira de não haver quem queira aprendê-la. Talvez, porque hoje tudo é facilitado, já que ele como aprendiz tinha que ir de casa em casa à procura de trabalho e nada ganhava com isso. Hoje, tem o seu estaleiro em Vilarinho, Melres e apesar da tarefa trabalhosa, não tem mãos a medir.

o único construtor e reparador de barcos em Melres o único construtor e reparador de barcos em Melres [foto Emílio Ferreira, Melres, Julho de 1998  in  "Artes e Saberes da Terra de Melres", Melres, 1998, pg.28

Manuel Sousa - construtor e reparador de barcos em Melres
foto Emílio Ferreira, Melres, julho de 1998
in "Artes e Saberes da Terra de Melres", Melres, 1998, pg. 28

 

No entanto, nesta arte notabilizou-se um outro artesão, Mestre Arnaldo.
Arnaldo Pereira nasceu em Vilar do Andorinho, Vila Nova de Gaia, a nove de Março de 1911, numa família tradicionalmente construtora de barcos. O bisavô ensinou a arte ao avô e este ao pai que transmite o saber a Arnaldo. Assim, aos treze anos já ajudava o pai na construção de barcos. Com ele ia por Crestuma, Pombal, Lixa, Carvoeiro, Melres e até Entre-os-Rios.  Aos dezoito anos construiu o primeiro Valboeiro. Estabeleceu-se em Melres a construir barcos e fez desta arte a sua ocupação até morrer. Participou em inúmeras feiras de artesanato a fim de dar a conhecer os barcos que saíam das suas mãos.

 

Mestre Arnaldo a colocar pegões. [foto de Manuel Joaquim Soares in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres", Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997]

Mestre Arnaldo, a colocar pegões.
[foto de Manuel Joaquim Soares
in "Da Terra de Mallores a que agora chamam Melres",
Santa Casa da Misericórdia de Vera Cruz de Gondomar, 1997, pg 106]

 

PESCA

 

                                                                  Foto Maria Gomes

A importância da pesca nesta região vem de tempos longínquos - Os Fenícios comercializavam o peixe salgado e os Romanos, a partir do século II, a conserva de peixe - garum. Em tempos medievais os Senhores preocuparam-se em legislar sobre a cobrança de impostos sobre o pescado, como pode ser exemplificado no Foral de Gondomar. Só em 1843 vão ser substituídos todos estes impostos de pesca devidos aos senhores pelo pagamento ao Estado de 6% dos lucros dos pescadores, que em 1928 passa para 8,3% do valor do pescado.

A preocupação de regrar a pesca vai também ser constante. Desde muito cedo são redigidas leis nesse sentido.  Por exemplo Os "Acordãos da Câmara do Porto" de 1560 e 1561 estabelecem o tipo de malhas permitidas e proibem certas redes (mossas e covãos nos meses de março a maio exceto para os Sáveis, bogas e tainhas e com redes varredouras: tresmalhos e galritos dobrados) bem como proibem a poluição das águas com trovisco, barbasco, coca ou cal. No entanto a provar que a prevaricação é constante o Decreto de 16 de setembro de 1886 volta a proibir os mesmos métodos e redes.

As penas consistiam em prisão de três a trinta dias e correspondente multa.

 

 

MOSSA - pancada

 

COVÃOS - grande cova

 

TRESMALHO - rede de tres panos para pescar

 

GALRITO - rede formada por um saco

 

COCA - planta extraída da coca, planta narcótica.

 

CAL -  óxido de cácio

 

TROVISCO  - subarbusto frequente nos outeiros,charnecas e matos, tem flores cheirosas, dispostas em cachos terminais, com pedúnculos e pedicelos branco-tomentosos.

 

BARBASCO - folhas da planta do mesmo nome - barbasco, verbasco ou alecrim das paredes - planta medicinal com flor amarela e sementes negras.

 

 

AS REDES 

 A lampreia podia-se pescar com:


- o Alar
Rede triangular bastante comprida. É fixa na areia por uma vara de pinheiro com o vértice em oposição à corrente da água. Na extremidade possui uma "nassa", ou armadilha. Retem cerca de 40 a 50 lampreias.
É utilizado na pesca da Lampreia.





nassa para as pesqueiras do Douro in Baldaque da Silva

- Camaroeiro ou conchinha
Compõe-se por um saco de rede, pano rectangular com costuras laterais, que se prende a um arco em madeira ou ferro, que por sua vez está ligado a um cabo.
É utilizado para espécies que se encontram em grupos. sável, lampreia; savelha.

- Tresmalho ou Vanda
Redes de três panos sobrepostos tendo cada um a forma rectangular - a rede mais larga fica por fora e a mais fina por dentro. As malhas têm todas a forma quadrada. São empregadas por todo o rio Douro deixando-as andar com a maré acompanhadas pelo barco.
É utilizado para o sável, lampreia; savelha

- Varga, varina ou Barga
Rede de arrasto de linho.Têm um único pano de emalhar e grande cortiçada na tralha superior e a inferior liga-se ao lastro que é feito de poucos pedaços de barro vermelho ou lousa chamados bolos - são usadas na costa e dentro do rio sempre a arrastarem do mar para a terra para o que tem cordas amarradas às forcadas.
É utilizado para o sável, savelha, solha.

- Espinhela
Para a lançar começa-se por enterrar, perto da margem, uma estaca, com cerca de meio metro onde se amarra uma corda. Na outra extremidade prende-se com um fio uma pedra com cerca de 500g que é para assentar no fundo. Esta é atirada ao rio esticando a corda. A linha com cerca 200m tem um anzol de 10 em 10 e isca-se com minhoca, camarão ou sardinha. No final deste aparelho amarra-se um bóia para saber onde ficou.
É usada para peixes de tamanho médio - enguia, robalo e tainha.

É usada, ainda a Cana para peixes pequenos. Ao longo do rio, em determinados pontos eram colocadas pesqueiras - estratagemas para pescar.


Quanto ao peixe pescado o  Foral de Gondomar refere a : Lampreia; Sável: Solha e Irez  (eiró - espécie de enguia).   

 Hoje, ainda é possível pescar enguia, barbo; boga; escalo; tainha; mugem, ruivaca, alguma lampreia e sável;

 

Os peixes do rio Douro 

 

 Barbo - BARBUS

| Enguia - ANGUILLA
| Boga - CHONDROSTOMA POLYLEPSIS
| Escalo - LEUCISCUS
| Truta -  SALMO GAIRDNERI - SALMO GAIRDNERI - truta arco-íris
| Lampreia - LAMPETRA FLUVIALIS 
| Sável - CLUPEA ALOSA
| Solha -FLESUA VULGARIS  
| Tainha  MUGIL CAPITO
| Muge - MUGIL AURATUS