sábado, 21 de março de 2015

FAUSTO NA CORTE DE D. MANUEL I

CORTE MANUELINA




A corte manuelina tinha especificidades únicas – era luxuosa e sofisticada, à moda do seu tempo, mas não competia com o aparato de alguns outros centros políticos da cristandade. No entanto, tinha um cunho exótico único, que a distinguia das demais, e que dava prestígio ao seu rei. (…)
O Venturoso viveu rodeado de um luxo próprio da sua condição, mas que ele cultivava- “no tratamento da sua pessoa foi muito grandioso”, diz-nos Jerónimo Osório. Também nesta matéria devemos ver no monarca um homem do seu tempo, pois, como refere Rafael Moreira, nesta época “ a população urbana ocidental mudou o rumo – e o sentido ideológico marcadamente religioso – dos seus padrões de consumo -  … e descobria o prazer de gastar. Fez crescer a procura a níveis quantitativos antes impensáveis, introduzindo critérios mais exigentes de variedade de oferta, premiou a novidade técnica e o bom gosto, impondo a dinâmica do novo, do exuberante e do mundano à civilização, de que a arte era apenas uma das manifestações.” Neste contexto, “ os anos áureos manuelinos haviam introduzido um conceito de consumo sumptuário e abastecimento de qualidade nos melhores centros estrangeiros que deixava a perder de vista a rigidez das leis pragmáticas para restrição dos excessos de luxo […], fazendo da riqueza exterior sinal de estatuto e bem-estar: quase um dever cívico-Mais que mudança económica, tratou-se de profunda transformação cultural, a que nenhum sector da sociedade foi imune.”[i] O poderio económico do país levou mesmo Osório a afirmar que “parecia em seu reinado terem mandado a pobreza em degredo.”[ii]
Rei centralizador, procurou naturalmente reforçar a sua primazia através de um cerimonial que o destacasse e que, ao mesmo tempo, satisfizesse os seus gostos pessoais. Damião de Gois realça, por exemplo, o facto de o monarca ser “ de sua pessoa galante e bem vestido, do que se prezava tanto que quase todos os dias vestia alguma cousa nova”, e acrescenta que após o seu falecimento as suas roupas foram repartidas pelos monarcas da casa real, e quase todas as igrejas receberam tecidos. A consulta da lista incompleta dos seus bens de guarda-roupa existentes aquando da sua morte permite-nos vislumbrar uma parte do fausto que rodeava o monarca. O demais podemos imaginar, como fez recentemente Rafael Moreira: “os inventários e descrições, estranhamentos raros, chegados até nós permitem imaginar os seus interiores [das residências] a transbordar duma riqueza inusitada: pinturas murais, alcatifas de estrado, razes e tapeçarias temáticas tecidas em Bruxelas a revestir paredes, panos bordados, credências que se armavam para expor porcelanas, salvas e gomis de prata e ouro; um mobiliário inovador.”[iii]
O rei seria provavelmente um melómano. Jerónimo Osório afirma que “deleitava-o muito a música, mas não tanto que o afecto a ela o desencaminhasse dos negócios do Estado”.[iv] Esta ressalva do cronista serve para realçar o gosto do monarca, de que encontramos vários testemunhos interessantes em Damião de Góis. Este diz-nos que o monarca gostava muito de escutar música e fazia-o nas mais variadas situações: ao deitar, às refeições, na caça, e mesmo enquanto cumpria as suas funções governativas, pois quando estava a despachava a despachar “ havia sempre na Câmara em que estava música de cravo e cantores”. Tocavam para si, “ estremados cantores e tangedores, que lhe vinham de todas as partes da Europa” e, segundo o cronista teria “ uma das melhores capelas de quantos reis e príncipes então viviam”. Por vezes, despachava enquanto passeava num “batel de feição de galeota, toldado e embandeirado de seda” no Tejo e levava sempre consigo músicos. Também se fazia acompanhar de executantes quando ia à caça, que lhe tocavam e cantavam “fosse no campo, ou nas casas onde comia”.
Um dos momentos culminantes do aparato régio ocorria no Natal, pois D. Manuel I ceava sempre em público “com todo o estado de porteiros de maça, reis de armas, trombetas, atabales, charamelas”. Ao longo do ano, todos os domingos e dias santos, o monarca “jantava e ceava com música, de charamelas, sacabuxas, cornetas, harpas, tamboris e rabecas, e nas festas principais com atabales e trombetas”; também tinha “músicos mouriscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pandeiros”. Nestes dias, quando estava casado, “dava serão às damas e galantes, em que todos dançavam e bailavam, e ele algumas vezes”.
(….) a corte assistiu também às representações teatrais realizadas por Gil Vicente. Este compôs cerca de 20 textos durante o reinado manuelino, que foram apresentados publicamente no paço.
(…) o rei frequentemente mandava correr touros, ou organizava jogos de canas, em que participava por vezes.
À boa maneira medieval, o rei tinha bobos na corte – “chocarreiros castelhanos, com os motes e ditos dos quais folgava, não porque gostasse tanto do que diziam, como o fazia das dissimuladas repreensões que com jeitos e palavras trocadas davam aos moradores de sua casa, fazendo-lhes conhecer as manhas, vícios e modos que tinham”. Independentemente da utilidade social e moral dos mofadores, sugerida pelo cronista, a sua origem e derivado remete-nos para outra realidade da corte manuelina – o seu bilinguismo, em parte derivado, tanto quanto se sabe, do ouvido duro das rainhas que tinham dificuldade em entender o português e que encontraram um ambiente em que como hoje, o castelhano é relativamente fácil de compreender. Sintomaticamente, Gil Vicente, neste período, escreveu parte significativa das suas peças em castelhano.
Talvez D. Manuel jogasse xadrez, pois no inventário do seu guarda-roupa está assinalado “um jogo de xadrez da Índia, de marfim de figuras de elefantes e cavalos e homens dourados em partes, do qual jogo falece uma dama e um peão”.[v] Se esta referência não nos garante, só por si, que o monarca se interessasse pessoalmente pelo jogo, ela leva-nos a uma outra característica da corte do Venturoso – o colorido especial que lhe era dado pelo exotismo oriundo do além-mar.
O Exótico
(…)
Em Portugal, terá havido, sem dúvida, nessa altura, uma revolução dos sabores, pois quer o açúcar quer as especiarias começaram a ser usadas com alguma intensidade. O monarca oferecia pequenas quantidades destes produtos quer a instituições quer a indivíduos. A Excelente Senhora recebia todos os anos especiarias e açúcar, bem como como d. Isabel, a irmã do rei, que tinha por mercê anual dois arráteis de pimenta e de benjoim, e um arrátel de cravo, de gengibre, de noz-moscada, de maças, de malagueta (…). Também D. Beatriz, a mãe do monarca, dispunha de especiarias na sua dispensa (…) quantidades apreciáveis de especiarias asiáticas (…) malagueta, açúcar, sândalo, lenho aloés, incenso, Cânfora e seis “piparotes de conserva da ilha”
(…) a criadagem também podia experimentar novos paladares e algumas porções de especiarias sairiam discretamente dessas cozinhas dos poderosos para animar as refeições de outros.
(…) É de crer que fosse fácil encontrar macacos e papagaios, mesmo em casas humildes.
(…) Não admira que nesta época não tenham sido impressos livros em Portugal sobre os territórios ultramarinos (…) Os navegadores que sustentavam o império eram naturais dos mais variados recantos  do país. (…) Pouca gente precisaria de adquirir um livro para se inteirar sobre a configuração de um africano ou de um indiano, ou sobre as formas de um elefante, de uma girafa ou até de um rinoceronte. Havia muita gente capaz de os descrever a quem ainda não os tivesse visto. Além disso, em Lisboa, que seria o maior mercado potencial para a compra desses livros, era precisamente onde se concentrava grande parte dessa diversidade. Góis lembra que, quando desfilava em Lisboa, o cortejo régio incluía elefantes e, nomeadamente, um rinoceronte. (….) Durër elaborou, em 1515, para o público alemão, e no mesmo ano circulava em Roterdão igualmente um texto sobre a Forma et Natura Costumi delo Rinoceronte e um outro artista Burgkmair, fez mais uma gravura da fera. (…)
Sabedor desta realidade, D. Manuel procurou explorá-la, quando enviou um elefente ao papa, e depois quando lhe ofereceu o rinoceronte. Se, de uma forma geral, era a corte portuguesa que absorvia os gostos e os estilos artísticos que tinham por focos irradiadores a Itália e os Países Baixos, nesta matéria o rei de Portugal podia demonstrar a sua singularidade aos olhos dos Europeus.
Entre os produtos novos por que o mundo se deixou fascinar rapidamente conta-se a porcelana Chinesa.
No caso do rei, a presença de peças asiáticas no seu guarda- roupa é muito significativa: incluía muitos tecidos, mas sobressaem as joias, muitas das quais oferecidas por soberanos asiáticos ou por fidalgos portugueses. (…) um Kris com a bainha cheia de rubis e o punho em cristal, que lhe fora oferecido por Simão da Silveira, ou um punhal “com muitos diamantes e rubis com sua bainha de ouro” ou uma cimitarra guarnecida  de prata dourada; (…) dois Kris, um com sete rubis e outro com oito, cujos punhos tinham umas imagens de “mulheres de corno” e as bainhas eram forradas a ouro. (…) uma alcatifa de seda de cores (…) que fora oferecida pelo rei de Melinde (…) porcelanas, um “vasozinho de prata” e um caderno de folhas de papel “de letras e pinturas dos chins que parecem santos que tem cobertura azul”.[vi] Se alguma vez folheou este livro, o rei terá contactado, muito provavelmente, com o testemunho de uma religião desconhecida, de que os Europeus só tomariam consciência passados alguns anos – o budismo.




O brilho do norte
Em Portugal, foi a arte do norte da Europa que seduziu o público e o mercado, o que resultou não só da qualidade dos artistas flamengos, mas também das relações comerciais e políticas intensas que ligavam Portugal aos Países Baixos. (..)
Foram, por exemplo iluminadores flamengos que realizaram os trabalhos magníficos do Livro de Horas da rainha D. Leonor, irmã do rei, e o Livro de Horas dito de D. Manuel I, hoje em dia um dos tesouros  do Museu  Nacional de Arte  Antiga, que foi realizado por António de Holanda e Simão Bening e que contém, “o maior repertório de paisagem existente em Portugal nos inícios do século XVI”. Também as iluminuras dos primeiros livros de Leitura Nova tiveram mão de António de Holanda. No domínio da tapeçaria, os portugueses recorreram igualmente à Flandres. (…) Já haviam sido produzidas aí as tapeçarias que evocavam a conquista de Arzila, quando D. Manuel I encomendou uma série de 26 peças para celebrar a viagem de Vasco da Gama, que foram colocadas nos Claustros dos Jerónimos.(…)
Por esta altura foram importadas muitas estátuas (…) Os  arquipélagos da madeira e Açores foram grandes consumidores (…). O reinado de D. Manuel I corresponde ao apogeu do açúcar madeirense (…).



Bibliografia:
Freire, Anselmo Brancaamp, “Inventário da guarda-roupa de D. Manuel I”, in Archivo Histórico Portuguez, Lisboa, vol II, 1904, pp.381-417
Moreira, Rafael, “A importação de obras de arte em Portugal no século XVI, in Da Flandres e do Ocidente. Escultura importada, Lisboa, Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 2002.
Costa, João Paulo Oliveira, D. Manuel I, Círculo de Leitores, Lisboa 2005.











[i] Moreira, 2002, pp 12-14
[ii] Osório, 1944, vol II, p. 298
[iii] Moreira, 2002, p.13
[iv] Osório, 1944, vol II, pp. 297-298
[v] Freire, 1904, p. 413
[vi] Freire, 1904, p.p. 384, 388, 389, 392. 407 e 410

D. MANUEL - O TEMPO E A ALMA


sexta-feira, 20 de março de 2015

MÚSICA NA ÉPOCA QUINHENTISTA

DANÇA NA ÉPOCA QUINHENTISTA

VESTUÁRIO DA ÉPOCA DOS DESCOBRIMENTOS

ALIMENTAÇÃO NA ÉPOCA QUINHENTISTA

O século XVI é revolucionário nos costumes e tradições devido ao confronto de culturas, proporcionado pela Expansão Europeia. Como reflexo desta época, no reinado de D. Manuel I, em que Portugal era um dos países mais ricos do mundo, os banquetes contavam com numerosos manjares temperados com açúcar, canela, especiarias e muitos outros temperados com açúcar, canela, especiarias diversas e muitos outros temperos, em tal quantidade, que se tornavam, por vezes, desagradável ao paladar. A presença dos novos ingredientes está patente no Livro da Infanta D. Maria, o primeiro livro de receitas que se conhece.
Tradicionalmente, a base da alimentação era a carne, já que Portugal era um país de coutadas e de baldios e grande parte dos impostos eram pagos em animais de criação.
A carne era cozinhada no espeto, cozida, estufada ou picada. No século XVI, o pavão americano, ou real passa a ser afamado.
Numa época em que a economia portuguesa dependia, em grande parte do mar, o peixe era muito consumido, sobretudo pelos grupos sociais mais desfavorecidos. A Igreja, ao legislar sessenta e oito dias, no ano, de abstinência, contribuía para este consumo.
Além do peixe fresco, cozinhado frito ou em empadas, o século XVI também consumia o peixe salgado, fumado ou seco.
As hortaliças e legumes não eram muito apreciados entre os grupos sociais superiores, mas o povo consumia-os abundantemente.
Nas casas ricas, na Idade Média usava-se as ervas de cheiro (coentros, salsa, hortelã, sumo de limão, de agraço, de cebola e de pinhões). Com a Expansão, generaliza-se o uso do cravo, açafrão, pimenta e gengibre.
As viandas de leite são muito usadas, nesta altura, sobretudo como sobremesas.
Os ovos eram consumidos com fartura. A abundância de ovos era consequência natural da abundância de criação. Além de serem componente importante da cozinha elaborada, os ovos eram cozinhados cozidos, escalfados e mexidos.
A fruta desempenhava fator de relevo na dieta mediterrânea. A viagem de Vasco da Gama dá a conhecer a laranja doce (até ali só se conhecia a azeda).
A fruta também era consumida em conservas ou doces.
O Renascimento incrementou a arte doceira, pouco frequente na Idade Média, dado o alto preço do açúcar.
O pão de trigo era fabricado em forma circular, servindo de alimento e de suporte para a comida. A castanha e a bolota vão ser destronadas, do século XVI ao século XVIII, pela batata trazida da América. No entanto, o produto que mais revolucionará a alimentação é, sem dúvida, o milho maiz, pela possibilidade que dá de confecionar farinhas diversas para pão, papas e bolos.
O feijão americano passa a usar-se, também, na alimentação moderna.
O arroz, vindo da Ásia, vai entrando lentamente nos hábitos europeus.
O Renascimento dá a conhecer bebidas até ali desconhecidas como o chá. O café e o chocolate, trazidos pelo comércio intercontinental.
O vinho continua a ser usual como acompanhamento.

Os Banquetes, no século XVI, apresentavam um cerimonial próprio: criados empunhavam tochas, precediam a chegada das iguarias e do vinho à mesa.
Antes das refeições, era costume lavar-se as mãos em bacias trazidas por serviçais.
Nos banquetes requintados, a água era perfumada. As mãos eram limpas a napeiras (toalhas pequenas).
Sobre a mesa dispunham-se peças de ourivesaria com fins decorativos e utilitários.
Os manjares eram trazidos dentro de terrinas ou bacias.
Na Idade Média, a carne e o peixe eram comidos em cima de rodelas de pão. Com o tempo, o talhador de madeira, salva grande onde a carne era trinchada, substituiu o pão.
Para a sopa e outros e outros alimentos líquidos, usavam-se escudelas de madeira, de prata ou de barro, as tigelas. A pouco e pouco, o uso destes artigos estendeu-se, também, aos alimentos sólidos. Existia um talhador ou escudela para cada dois convivas.
Utilizavam-se pouco as colheres. Cada conviva levava a própria faca para o banquete. Os garfos eram desconhecidos. Para beber, usavam-se copos, os tais ou tagras.



Galinha Cozida e ensopada

Tomarão esta galinha e cozê-la-ão com salsa, coentro, hortelã e cebola. Então deitar-lhe-ão sua têmpera de vinagre e, depois dela temperada e cozida, tomarão a ferver noutra, e deitar-lhe-ão dentro na mesma panela meia dúzia de ovos;  e com este mesmo caldo dos ovos tomarão dois pares de gemas de outros ovos e batê-los-ão e farão um caldo amarelo; e tomarão a mesma galinha e pô-la-ão num prato com suas fatias, pôr-lhe-ão os ovos que estão cozidos por derredor, e então deitar-lhe-ão o mesmo caldo amarelo dos outros ovos por riba e deitar-lhe-ão canela pisada por riba.

Tigelada de leite


Tomarão quatro ovos e açúcar e farinha, que será cinco colheres de prata numa escudela, tudo batido; e tomarão numa tigelinha de barro e nela derreterão uma pouca de manteiga, que será tanta como uma noz em cada tigela. E depois que for derretida, deitarão este polme, que será temperado com sal, então mandá-lo-ão para deitar por cima depois que se coalhar.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

COMEMORAÇÃO DOS 500 ANOS DA CONCESSÃO DO FORAL DE GONDOMAR 1515 – 2015


BIBLIOGRAFIA


FONTES PRIMÁRIAS

 Foral de Gondomar, 1514



BIBLIOGRAFIA GERAL


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CHORÃO, Maria José Mexia Bigotte - Os forais de D. Manuel: 1496-1520. Ed. lit. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Lisboa: ANTT, 1990. 59 p.

COSTA, João Paulo Oliveira, D. Manuel I, Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, 2005.

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